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Sexo no Second Life

October 4th, 2007


laggos_277010447398.jpgHá uns dias escrevi um artigo sobre o Sec­ond Life onde retratei a frus­tração que é ten­tar par­tic­i­par de uma comu­nidade cujo fun­ciona­mento está tão desajus­tado daquilo que esta­mos à espera e prin­ci­pal­mente onde depois de o com­preen­der­mos percebe­mos que o seu moto se resume a uma maquinal acção de gas­tar dinheiro.

Curiosa­mente entre os comen­tários dos leitores do SPP houve bas­tantes que con­cor­daram com a minha opinião. Parece que a frus­tração com o Sec­ond Life é enorme. O Levi Figueira lem­brou um aspecto que na altura não pare­ceu impor­tante, mas que depois de pen­sar um pouco, faz bas­tante sen­tido: Sexo. O eMatch como o Levi lhe chama, é fun­da­men­tal para o sucesso do Sec­ond Life, quer como negó­cio de acessórios, quer para a própria sat­is­fação dos utilizadores.

Out­ros artigos:

  1. Sec­ond Life: 99% de bounce rate?
  2. John Conway´s Game of Life em HTML5
  3. Mod­e­lação de Agentes no Sec­ond Life
  4. Con­ways Life com música

  1. October 5th, 2007 at 00:22 | #1

    Quando afir­mas “real­i­dade vir­tual […], que quando com­parada com out­ras deixa muito a dese­jar” referes-te exac­ta­mente a que out­ras?
    Nao sei até que ponto é que o nego­cio do sexo no SL é assim tao sig­ni­fica­tivo, espe­cial­mente tendo em conta que a Lin­den Labs acaba por ter como a sua maior fonte de rendi­mento a venda de lotes e que os val­ores prat­i­ca­dos na venda de “arti­gos de inven­tario” entre par­tic­u­lares no Sec­ond Life acaba por nao ser assim tao alto (espe­cial­mente se tiver­mos em conta que um lote rel­a­ti­va­mente pequeno pode cus­tar mais de 1000 dollars).

    Acho curioso a forma como nos con­cen­tramos no sexo que existe no SL, quando na real­i­dade o nego­cio de roupa, cabelo e skins acaba com toda a certeza por fazer fluir mais din­heiro do que o sexo em si (podemos argu­men­tar que tal pode estar direc­ta­mente rela­cionado com sex-appeal e que logo vai dar ao mesmo…mas vá, nao vamos ser assim!). Exis­tem “escorts”, strip­pers e tudo mais, mas esta­mos a falar de par­tic­u­lares (pos­sivel­mente jovens imberbes sem grande coisa para fazer, é certo) que difi­cil­mente podemos apel­i­dar de “industria”…acho que essa indus­tria nao existe, o que existe é o mag­net­ismo que os humanos sen­tem pela repro­dução e o facto de ser uma “meca” em quase todos os cam­pos tec­nológi­cos de uma forma ou de outra lig­a­dos à infor­mática e aos media…

    O facto de não haver pornografia pro­gra­mada para Blueray acaba por por esse for­mato numa posição um pouco fragilizada…pelo menos até que con­tinue a haver con­trolo de con­teú­dos, a Lin­den Labs foi sufi­cien­te­mente inteligente para nao restringir o sexo (emb­ora tenha restringido o jogo ile­gal, mafias, etc) garan­ti­ndo no mín­imo essa camada de mer­cado… O teen life sendo uma grid muito mais restrita em ter­mos de con­teú­dos acaba por estar vazia…o que é curioso tendo em conta que o pub­lico alvo ini­cial do SL seria muito provavel­mente ado­les­centes e jovens adultos.

    como alguém disse “if you took all the porn out of the inter­net there would be only one site left and it would be called “bring the porn back!”

  2. January 13th, 2008 at 18:35 | #2

    Achei inter­es­sante estes dois pontos:

    […]retratei a frus­tração que é ten­tar par­tic­i­par de uma comu­nidade cujo fun­ciona­mento está tão desajus­tado daquilo que esta­mos à espera […] se resume a uma maquinal acção de gas­tar dinheiro

    e

    A tal real­i­dade vir­tual anun­ci­ada com pompa e cir­cun­stân­cia, que quando com­parada com out­ras deixa muito a dese­jar. O seu sucesso baseia-se nessa política/negócio de sexo que fomenta o desejo, per­mite supor­tar a falta de qual­i­dade dos cenários e atu­rar a falta de gosto dos utilizadores.

    Mas tem um mod­elo de negó­cio e tal como na real­i­dade a indús­tria do sexo é quem acaba por decidir, mesmo que invol­un­tari­a­mente, o sucesso e o fra­casso de um produto.

    O prob­lema com estas afir­mações têm a ver com os “gen­er­al­is­mos”. Não sei com quem é que o Six­hat se iden­ti­fica quando fala de “daquilo que esta­mos à espera”. Quem são as pes­soas nesse plural? Do que é que o Six­hat está à espera? O que são esses “desajustes”? Acaso não será o Six­hat que está “desajus­tado” com as dezenas de mil­hares de por­tugue­ses, e que por isso “sente” esse desajuste? A sua men­sagem não é clara.

    Da mesma forma, o que é a “real­i­dade vir­tual anun­ci­ada com pompa e cir­cun­stân­cia”? Lê-se nas entre­lin­has daquilo que não escreveu que existe aparente­mente um imag­inário colec­tivo do que é “real­i­dade vir­tual” — provavel­mente mod­e­lada a par­tir de utopias pub­lic­i­tadas em séries e livros de ficção cien­tí­fica — e que quando pela primeira vez nos lig­amos a uma real­i­dade vir­tual real (no sen­tido de que não é uma imag­i­nada), existe algum “desapon­ta­mento” — “não é nada disto que estava à espera”.

    Mas de que é que o Six­hat estava à espera?…

    Temos de largar o imag­inário utópico de uns poucos que nos fazem son­har com as suas ideias, e olhar para efec­ti­va­mente o que são os resul­ta­dos da uti­liza­ção dos “media”. Quando a TV foi lançada, os seus pro­po­nentes acred­i­tavam que iria ser usada para uma divul­gação cul­tural mais avançada, per­mitindo às pes­soas assi­s­tirem ao teatro e à ópera sem saírem de casa, e con­tribuindo assim para a uni­ver­sal­iza­ção da cul­tura dita eru­dita. Mas o que temos é real­ity shows e telen­ov­e­las e notí­cias de quan­tas pes­soas mor­reram no último aten­tado bombista em Bag­dade. Quanto a Web foi lançada pelo Tim Berners-Lee, ele jul­gava que ia ser uti­lizada fun­da­men­tal­mente para tra­balho colab­o­ra­tivo entre cien­tis­tas e inves­ti­gadores académi­cos. Na real­i­dade, a Web tornou-se no “canivete suíço” com mil­hões de apli­cações pos­síveis, sendo as que estão mais na moda a divul­gação de pro­du­tos e serviços, o comér­cio elec­trónico, e os sites soci­ais. E, claro, a pornografia. Quando os telemóveis foram lança­dos, ninguém pen­sou que seriam usa­dos por gru­pos de crim­i­nosos para se man­terem em con­tacto uns com os out­ros rap­i­da­mente e evitarem assim a polícia.

    E, enfim, Guten­berg acred­i­tava que poder pub­licar mais bíblias a mais baixo custo era uma boa uti­liza­ção para a sua prensa móvel. Duvido que ele estivesse a imag­i­nar que a sua invenção iria servir para pub­licar tablóides ou livros sobre cientologia.

    No fundo, o que acon­tece sem­pre que uma tec­nolo­gia entra no main­stream, ela é usada de uma forma com­ple­ta­mente difer­ente daquela que, ingen­u­a­mente, acred­itá­va­mos ser a “mel­hor” uti­liza­ção. Não admira. Quem propõe essas “mel­hores” for­mas — utópi­cas — de uti­liza­ção são uns poucos quan­tos eru­di­tos, cheios de boas intenções, mas que descon­hecem em abso­luto a natureza humana — ou sequer aquilo que as pes­soas gostam mesmo de fazer. O ser humano médio tem gos­tos, moti­vações, ideias, pul­sões e dese­jos muito difer­entes do que uma certa elite int­elec­tual julga terem. É pre­ciso descer ao nível do “main­stream” (das telen­ov­e­las, da música pimba, das banal­i­dades, do fute­bol…) para se com­preen­der que é isso que a maio­ria das pes­soas quer. Lamentar-mo-nos pela medioc­ridade extrema dos nos­sos queri­dos con­ci­dadãos enquanto nos damos pal­mad­in­has nas costas a dizer “ainda bem que não somos assim” é, a meu ver, a ati­tude errada…

    Em vez disso, deve­mos recon­hecer com humil­dade que, nas real­i­dades vir­tu­ais que de facto exis­tem e estão a fun­cionar, as pes­soas fazem aquilo que elas mais querem, e não aquilo que gostaríamos que elas fizessem. Se pre­tendemos algo de difer­ente, temos de lutar por dar­mos o exem­plo. Isto aplica-se a tudo: assim, ainda há canais cul­tur­ais na TV, ape­sar de 99% de toda a pro­gra­mação ser “pimba”. Há a Wikipedia que cresce no meio dos sites das banal­i­dades, e que se aprox­ima muito do ideal de tra­balho colab­o­ra­tivo entre académi­cos que o Tim Berners-Lee insis­tia. Mas criar este “espaço utópico” no mar do “main­stream pimba” requer esforço, incen­tivo, ded­i­cação, e muito tra­balho. Não é de braços cruza­dos que se “salva” uma geração-do-pimba. Não é fechando a porta e desistindo que damos o exemplo.

    Final­mente, há a questão de “explo­ração do espaço” com o objec­tivo de emi­tir uma opinião. Imag­inemos o tur­ista sueco que vai vis­i­tar os bair­ros de lata da Reboleira, na sua primeira visita a Por­tu­gal. Como que visão de Por­tu­gal vai ficar? Desiste provavel­mente ao fim de uma hora e escreve no seu blog: “Por­tu­gal é o país mais medonho da União Europeia. São só bair­ros de lata com pop­u­lações empo­bre­ci­das, sem condições, vivendo ao lado de uma cap­i­tal que decerto não tem condições sequer para ofer­e­cer emprego a esses mis­eráveis que vivem ao lado. É tudo sujo, sem qual­quer orga­ni­za­ção ou planea­mento urbano, com pes­soas sem con­hec­i­men­tos, sem cul­tura, sem qual­quer tipo de capaci­dades de con­seguirem sair da sua situ­ação deplorável. É espan­toso como estes habi­tantes deste país atrasado e mis­erável con­seguem intitular-se europeus como nós, pois clara­mente não acred­i­tam — não podem acred­i­tar, pois nem têm capaci­dade int­elec­tual para o faz­erem — na con­strução do grande pro­jecto europeu que nos indica o que deve ser o futuro.”

    Decerto no dia seguinte exi­s­tiriam mil­hares de men­sagens de protesto pelo ultraje no blog deste hipotético tur­ista. Diríamos que não é a par­tir de uma visita dos bair­ros de lata que se pode emi­tir uma opinião séria e neu­tra sobre as “capaci­dades” dos por­tugue­ses. Que Por­tu­gal tam­bém tem um autor que gan­hou recen­te­mente um prémio Nobel da lit­er­atura, emi­tido pela mesma Acad­e­mia Sueca das Ciên­cias que agra­ciou pes­soas como Ein­stein ou Nel­son Man­dela — evi­den­te­mente, estare­mos ao “mesmo nível” civ­i­liza­cional que o resto do mundo. Que temos tradições, história e cul­tura — mas tam­bém ino­vação, uma econo­mia rel­a­ti­va­mente próspera, e uma orga­ni­za­ção que está ao nível europeu. Que a limpeza e a higiene é a marca de prati­ca­mente todas as peque­nas ter­ras do inte­rior por­tuguês… e que mesmo as grandes cidades têm largas avenidas, par­ques e jardins, e cen­tros com­er­ci­ais e hos­pi­tais. Enfim, poderíamos con­tin­uar com a enu­mer­ação de mil­hares e mil­hares de exemplos.

    A questão sim­ples é que não se con­segue “avaliar” o Sec­ond Life e “a real­i­dade vir­tual anun­ci­ada com pompa e cir­cun­stân­cia” ape­nas olhando-se para os “bair­ros de lata” do mesmo, num espaço curt­inho de algu­mas horas. Mesmo ao fim de alguns meses, e falando-se com mil­hares de pes­soas, não ter­e­mos uma com­preen­são cor­recta e fun­da­men­tada de tudo aquilo que acon­tece e se passa no Sec­ond Life. Ao final de três anos e meio, tendo con­tac­tado com uma dezena de mil­har de pes­soas, lendo mil­hares de arti­gos e alguns livros sobre o Sec­ond Life, e investindo dezenas de horas sem­anais a estudá-lo (ao ambi­ente e aos seus habi­tantes), ainda me con­sidero uma “tur­ista” que pouco mais viu que a pequenís­sima ponta de um vastís­simo ice­ber­gue que se esconde neste ambi­ente vir­tual. O típico exem­plo é que o tal “con­teúdo sex­ual” no Sec­ond Life, segundo a Lin­den Lab, não excede os 18% da total­i­dade do con­teúdo exis­tente (na World-Wide Web, é cerca de 20% dos 6 bil­iões de pági­nas index­a­dos pela Google). Mas eu mal o vi. Sei que existe porque me falam dele e porque vi fotografias em blogs e forums. Mas tal como na vida real não tenho por hábito fazer pas­seios em bair­ros de lata e tecer comen­tários sobre os mes­mos, tam­bém no Sec­ond Life não ando à procura de con­teúdo de índole sex­ual, e por­tanto mal o con­heço. Não estou de todo habil­i­tada a fazer comen­tários sobre o mesmo. E, como disse, penso que pas­sei mais de vinte mil horas no Sec­ond Life!…

    Claro que as primeiras impressões con­tam, e muito. É por isso que 90% das pes­soas que usam uma nova tec­nolo­gia (seja o YouTube, o Face­book, o MySpace… ou o Sec­ond Life) acabam por desi­s­tir dela, se não encon­tram ime­di­ata­mente o que querem. Esta­mos numa sociedade hedo­nista que pre­tende ser entretida ime­di­ata­mente. O lazer pro­por­cionado por um tele­vi­sor está ao alcance de um botão, e ao fim de meio min­uto, já fizé­mos “zap­ping” por 50 canais em busca de con­teúdo que nos inter­esse (pago ou gratuito).

    No Sec­ond Life isso não acon­tece. Nem em 30 segun­dos, nem em 30 horas. É pre­ciso muito mais do que isso para se com­preen­der os “rudi­men­tos” das forças que movem esta real­i­dade vir­tual. É pre­ciso com­preen­der que o apelo da cri­ação de con­teú­dos no Sec­ond Life tem algo que na Web poucos con­seguem fazer: a cri­ação de uma econo­mia de con­teú­dos. Hoje em dia, há uma pro­porção ridic­u­la­mente pequena de pes­soas que com­pram con­teú­dos na Web — arti­gos de jor­nais, fotografias, designs de pági­nas Web — pelo que não nos apercebe­mos de que a venda de con­teú­dos via Web é de facto um negó­cio. A esma­gadora maio­ria da pop­u­lação por­tuguesa nunca pagou um tostão por aceder a con­teú­dos — e julga que todos os que exis­tem na Web são, enfim, de índole sex­ual… mas não é assim. Há mil­hões de pes­soas que com­pram e ven­dem diari­a­mente con­teú­dos na Web, mas nós é que não con­hece­mos ninguém (talvez uma em mil pes­soas esteja envolvida nesse negó­cio; mas se cal­har é uma em dez ou cem mil…).

    No Sec­ond Life, no entanto, quase toda a pop­u­lação com­pra ou vende con­teú­dos dig­i­tais. É um choque. É como se abrísse­mos o nosso browser um dia, e subita­mente nos désse­mos conta dos mil­hões de sites de com­pra e venda de con­teú­dos, dos quais nem sequer tín­hamos con­sciên­cia da sua existên­cia, muito menos do seu número. Mas no Sec­ond Life é ao con­trário. Temos lojas por todo o lado — como na vida real. É impos­sível não notá-las. E pud­era: num ambi­ente que tem mais habi­tantes que Por­tu­gal con­ti­nen­tal, todos os dias cerca de um mil­hão de Euros troca de mãos. Um mil­hão!… É para nós incon­ce­bível, quando a esma­gadora maio­ria dos con­teú­dos é ven­dido por (muito) menos de um Euro. E a cada dia são cri­a­dos sessenta ou setenta mil objec­tos e colo­ca­dos para venda — uma escala a que nen­hum de nós está preparado, pois, se na Web acon­tece pre­cisa­mente o mesmo, a ver­dade é que acon­tece “longe da vista”…

    Em con­clusão (que o comen­tário vai longo…), o Sec­ond Life é infini­ta­mente mais com­plexo do que uma mera visita “de algu­mas horas” possa dar a enten­der. Essa é, em certa medida, a sua pior car­ac­terís­tica. Tem demasi­adas pes­soas; tem demasi­ada com­plex­i­dade social; para o “com­preen­demos” temos de inve­stir tanto tempo como a vis­i­tar um país novo, com a sua própria cul­tura e sociedade, os seus hábitos e cos­tumes. Nesta ger­ação do ime­di­atismo do prazer, garan­tido pelo click instan­tâ­neo do con­t­role remoto, o Sec­ond Life parece-nos “desajus­tado”. É ver­dade — não há “ime­di­atismo” no Sec­ond Life. Aprendê-lo — e apreendê-lo — leva muito mais tempo do que a esma­gadora maio­ria das pes­soas tem capaci­dade para fazer.

    E por isso ficamo-nos pela ideia do bairro de lata, onde ciganos ofer­e­cem favores sex­u­ais e todo o tipo de con­teú­dos por uma meia dúzia de Euros, e é com essa imagem com que ficamos e escreve­mos nos nos­sos blogs.

  1. October 31st, 2007 at 01:09 | #1
  2. June 2nd, 2008 at 17:39 | #2
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