Sexo no Second Life

Sexo no Second Life é o motor da plataforma?

Sexo no Second Life é o motor da plataforma?

Escrevi um artigo sobre o Second Life onde retratei a frustração que é tentar participar de uma comunidade cujo funcionamento está tão desajustado daquilo que estamos à espera e principalmente onde depois de o compreendermos percebemos que o seu moto se resume a uma maquinal acção de gastar dinheiro.

Curiosamente entre os comentários dos leitores do SPP houve bastantes que concordaram com a minha opinião. Parece que a frustração com o Second Life é enorme. O Levi Figueira lembrou um aspecto que na altura não pareceu importante, mas que depois de pensar um pouco, faz bastante sentido: Sexo. O eMatch como o Levi lhe chama, é fundamental para o sucesso do Second Life, quer como negócio de acessórios, quer para a própria satisfação dos utilizadores.

Olhando para o artigo que o Levi escreveu em Agosto sobre o SL, tenho que concordar que tal como o IRC era ponto de encontro para o sexo virtual (mais tarde foi o ICQ), talvez hoje o Second Life seja a Playboy dos tempos modernos. O local onde as nossas fantasias possam ser concretizadas com o consentimento do anonimato digital.

Esta vertente do Second Life passou-me despercebida pela simples razão que não foi em momento algum premissa para a minha experimentação do SL. Quando lá fui procurava outra coisa: A tal realidade virtual anunciada com pompa e circunstância, que quando comparada com outras deixa muito a desejar. O seu sucesso baseia-se nessa política/negócio de sexo que fomenta o desejo, permite suportar a falta de qualidade dos cenários e aturar a falta de gosto dos utilizadores.

Mas tem um modelo de negócio e tal como na realidade a indústria do sexo é quem acaba por decidir, mesmo que involuntariamente, o sucesso e o fracasso de um produto.

Ver também: Second Life é um banco de teste Second Life: A nossa vida pimbaa

  2007/10/04 5:10 PM Leave a comment
  • http://freelancesamurai.wordpress.com/ freelance samurai

    Quando afirmas “realidade virtual [...], que quando comparada com outras deixa muito a desejar” referes-te exactamente a que outras? Nao sei até que ponto é que o negocio do sexo no SL é assim tao significativo, especialmente tendo em conta que a Linden Labs acaba por ter como a sua maior fonte de rendimento a venda de lotes e que os valores praticados na venda de “artigos de inventario” entre particulares no Second Life acaba por nao ser assim tao alto (especialmente se tivermos em conta que um lote relativamente pequeno pode custar mais de 1000 dollars).

    Acho curioso a forma como nos concentramos no sexo que existe no SL, quando na realidade o negocio de roupa, cabelo e skins acaba com toda a certeza por fazer fluir mais dinheiro do que o sexo em si (podemos argumentar que tal pode estar directamente relacionado com sex-appeal e que logo vai dar ao mesmo…mas vá, nao vamos ser assim!). Existem “escorts”, strippers e tudo mais, mas estamos a falar de particulares (possivelmente jovens imberbes sem grande coisa para fazer, é certo) que dificilmente podemos apelidar de “industria”…acho que essa industria nao existe, o que existe é o magnetismo que os humanos sentem pela reprodução e o facto de ser uma “meca” em quase todos os campos tecnológicos de uma forma ou de outra ligados à informática e aos media…

    O facto de não haver pornografia programada para Blueray acaba por por esse formato numa posição um pouco fragilizada…pelo menos até que continue a haver controlo de conteúdos, a Linden Labs foi suficientemente inteligente para nao restringir o sexo (embora tenha restringido o jogo ilegal, mafias, etc) garantindo no mínimo essa camada de mercado… O teen life sendo uma grid muito mais restrita em termos de conteúdos acaba por estar vazia…o que é curioso tendo em conta que o publico alvo inicial do SL seria muito provavelmente adolescentes e jovens adultos.

    como alguém disse “if you took all the porn out of the internet there would be only one site left and it would be called “bring the porn back!”

  • Pingback: Alcides Fonseca

  • http://gwynethllewelyn.net/ Gwyneth Llewelyn

    Achei interessante estes dois pontos:

    [...]retratei a frustração que é tentar participar de uma comunidade cujo funcionamento está tão desajustado daquilo que estamos à espera [...] se resume a uma maquinal acção de gastar dinheiro

    e

    A tal realidade virtual anunciada com pompa e circunstância, que quando comparada com outras deixa muito a desejar. O seu sucesso baseia-se nessa política/negócio de sexo que fomenta o desejo, permite suportar a falta de qualidade dos cenários e aturar a falta de gosto dos utilizadores. Mas tem um modelo de negócio e tal como na realidade a indústria do sexo é quem acaba por decidir, mesmo que involuntariamente, o sucesso e o fracasso de um produto.

    O problema com estas afirmações têm a ver com os “generalismos”. Não sei com quem é que o Sixhat se identifica quando fala de “daquilo que estamos à espera”. Quem são as pessoas nesse plural? Do que é que o Sixhat está à espera? O que são esses “desajustes”? Acaso não será o Sixhat que está “desajustado” com as dezenas de milhares de portugueses, e que por isso “sente” esse desajuste? A sua mensagem não é clara.

    Da mesma forma, o que é a “realidade virtual anunciada com pompa e circunstância”? Lê-se nas entrelinhas daquilo que não escreveu que existe aparentemente um imaginário colectivo do que é “realidade virtual” — provavelmente modelada a partir de utopias publicitadas em séries e livros de ficção científica — e que quando pela primeira vez nos ligamos a uma realidade virtual real (no sentido de que não é uma imaginada), existe algum “desapontamento” — “não é nada disto que estava à espera”.

    Mas de que é que o Sixhat estava à espera?…

    Temos de largar o imaginário utópico de uns poucos que nos fazem sonhar com as suas ideias, e olhar para efectivamente o que são os resultados da utilização dos “media”. Quando a TV foi lançada, os seus proponentes acreditavam que iria ser usada para uma divulgação cultural mais avançada, permitindo às pessoas assistirem ao teatro e à ópera sem saírem de casa, e contribuindo assim para a universalização da cultura dita erudita. Mas o que temos é reality shows e telenovelas e notícias de quantas pessoas morreram no último atentado bombista em Bagdade. Quanto a Web foi lançada pelo Tim Berners-Lee, ele julgava que ia ser utilizada fundamentalmente para trabalho colaborativo entre cientistas e investigadores académicos. Na realidade, a Web tornou-se no “canivete suíço” com milhões de aplicações possíveis, sendo as que estão mais na moda a divulgação de produtos e serviços, o comércio electrónico, e os sites sociais. E, claro, a pornografia. Quando os telemóveis foram lançados, ninguém pensou que seriam usados por grupos de criminosos para se manterem em contacto uns com os outros rapidamente e evitarem assim a polícia.

    E, enfim, Gutenberg acreditava que poder publicar mais bíblias a mais baixo custo era uma boa utilização para a sua prensa móvel. Duvido que ele estivesse a imaginar que a sua invenção iria servir para publicar tablóides ou livros sobre cientologia.

    No fundo, o que acontece sempre que uma tecnologia entra no mainstream, ela é usada de uma forma completamente diferente daquela que, ingenuamente, acreditávamos ser a “melhor” utilização. Não admira. Quem propõe essas “melhores” formas — utópicas — de utilização são uns poucos quantos eruditos, cheios de boas intenções, mas que desconhecem em absoluto a natureza humana — ou sequer aquilo que as pessoas gostam mesmo de fazer. O ser humano médio tem gostos, motivações, ideias, pulsões e desejos muito diferentes do que uma certa elite intelectual julga terem. É preciso descer ao nível do “mainstream” (das telenovelas, da música pimba, das banalidades, do futebol…) para se compreender que é isso que a maioria das pessoas quer. Lamentar-mo-nos pela mediocridade extrema dos nossos queridos concidadãos enquanto nos damos palmadinhas nas costas a dizer “ainda bem que não somos assim” é, a meu ver, a atitude errada…

    Em vez disso, devemos reconhecer com humildade que, nas realidades virtuais que de facto existem e estão a funcionar, as pessoas fazem aquilo que elas mais querem, e não aquilo que gostaríamos que elas fizessem. Se pretendemos algo de diferente, temos de lutar por darmos o exemplo. Isto aplica-se a tudo: assim, ainda há canais culturais na TV, apesar de 99% de toda a programação ser “pimba”. Há a Wikipedia que cresce no meio dos sites das banalidades, e que se aproxima muito do ideal de trabalho colaborativo entre académicos que o Tim Berners-Lee insistia. Mas criar este “espaço utópico” no mar do “mainstream pimba” requer esforço, incentivo, dedicação, e muito trabalho. Não é de braços cruzados que se “salva” uma geração-do-pimba. Não é fechando a porta e desistindo que damos o exemplo.

    Finalmente, há a questão de “exploração do espaço” com o objectivo de emitir uma opinião. Imaginemos o turista sueco que vai visitar os bairros de lata da Reboleira, na sua primeira visita a Portugal. Como que visão de Portugal vai ficar? Desiste provavelmente ao fim de uma hora e escreve no seu blog: “Portugal é o país mais medonho da União Europeia. São só bairros de lata com populações empobrecidas, sem condições, vivendo ao lado de uma capital que decerto não tem condições sequer para oferecer emprego a esses miseráveis que vivem ao lado. É tudo sujo, sem qualquer organização ou planeamento urbano, com pessoas sem conhecimentos, sem cultura, sem qualquer tipo de capacidades de conseguirem sair da sua situação deplorável. É espantoso como estes habitantes deste país atrasado e miserável conseguem intitular-se europeus como nós, pois claramente não acreditam — não podem acreditar, pois nem têm capacidade intelectual para o fazerem — na construção do grande projecto europeu que nos indica o que deve ser o futuro.”

    Decerto no dia seguinte existiriam milhares de mensagens de protesto pelo ultraje no blog deste hipotético turista. Diríamos que não é a partir de uma visita dos bairros de lata que se pode emitir uma opinião séria e neutra sobre as “capacidades” dos portugueses. Que Portugal também tem um autor que ganhou recentemente um prémio Nobel da literatura, emitido pela mesma Academia Sueca das Ciências que agraciou pessoas como Einstein ou Nelson Mandela — evidentemente, estaremos ao “mesmo nível” civilizacional que o resto do mundo. Que temos tradições, história e cultura — mas também inovação, uma economia relativamente próspera, e uma organização que está ao nível europeu. Que a limpeza e a higiene é a marca de praticamente todas as pequenas terras do interior português… e que mesmo as grandes cidades têm largas avenidas, parques e jardins, e centros comerciais e hospitais. Enfim, poderíamos continuar com a enumeração de milhares e milhares de exemplos.

    A questão simples é que não se consegue “avaliar” o Second Life e “a realidade virtual anunciada com pompa e circunstância” apenas olhando-se para os “bairros de lata” do mesmo, num espaço curtinho de algumas horas. Mesmo ao fim de alguns meses, e falando-se com milhares de pessoas, não teremos uma compreensão correcta e fundamentada de tudo aquilo que acontece e se passa no Second Life. Ao final de três anos e meio, tendo contactado com uma dezena de milhar de pessoas, lendo milhares de artigos e alguns livros sobre o Second Life, e investindo dezenas de horas semanais a estudá-lo (ao ambiente e aos seus habitantes), ainda me considero uma “turista” que pouco mais viu que a pequeníssima ponta de um vastíssimo icebergue que se esconde neste ambiente virtual. O típico exemplo é que o tal “conteúdo sexual” no Second Life, segundo a Linden Lab, não excede os 18% da totalidade do conteúdo existente (na World-Wide Web, é cerca de 20% dos 6 biliões de páginas indexados pela Google). Mas eu mal o vi. Sei que existe porque me falam dele e porque vi fotografias em blogs e forums. Mas tal como na vida real não tenho por hábito fazer passeios em bairros de lata e tecer comentários sobre os mesmos, também no Second Life não ando à procura de conteúdo de índole sexual, e portanto mal o conheço. Não estou de todo habilitada a fazer comentários sobre o mesmo. E, como disse, penso que passei mais de vinte mil horas no Second Life!…

    Claro que as primeiras impressões contam, e muito. É por isso que 90% das pessoas que usam uma nova tecnologia (seja o YouTube, o Facebook, o MySpace… ou o Second Life) acabam por desistir dela, se não encontram imediatamente o que querem. Estamos numa sociedade hedonista que pretende ser entretida imediatamente. O lazer proporcionado por um televisor está ao alcance de um botão, e ao fim de meio minuto, já fizémos “zapping” por 50 canais em busca de conteúdo que nos interesse (pago ou gratuito).

    No Second Life isso não acontece. Nem em 30 segundos, nem em 30 horas. É preciso muito mais do que isso para se compreender os “rudimentos” das forças que movem esta realidade virtual. É preciso compreender que o apelo da criação de conteúdos no Second Life tem algo que na Web poucos conseguem fazer: a criação de uma economia de conteúdos. Hoje em dia, há uma proporção ridiculamente pequena de pessoas que compram conteúdos na Web — artigos de jornais, fotografias, designs de páginas Web — pelo que não nos apercebemos de que a venda de conteúdos via Web é de facto um negócio. A esmagadora maioria da população portuguesa nunca pagou um tostão por aceder a conteúdos — e julga que todos os que existem na Web são, enfim, de índole sexual… mas não é assim. Há milhões de pessoas que compram e vendem diariamente conteúdos na Web, mas nós é que não conhecemos ninguém (talvez uma em mil pessoas esteja envolvida nesse negócio; mas se calhar é uma em dez ou cem mil…).

    No Second Life, no entanto, quase toda a população compra ou vende conteúdos digitais. É um choque. É como se abríssemos o nosso browser um dia, e subitamente nos déssemos conta dos milhões de sites de compra e venda de conteúdos, dos quais nem sequer tínhamos consciência da sua existência, muito menos do seu número. Mas no Second Life é ao contrário. Temos lojas por todo o lado — como na vida real. É impossível não notá-las. E pudera: num ambiente que tem mais habitantes que Portugal continental, todos os dias cerca de um milhão de Euros troca de mãos. Um milhão!… É para nós inconcebível, quando a esmagadora maioria dos conteúdos é vendido por (muito) menos de um Euro. E a cada dia são criados sessenta ou setenta mil objectos e colocados para venda — uma escala a que nenhum de nós está preparado, pois, se na Web acontece precisamente o mesmo, a verdade é que acontece “longe da vista”…

    Em conclusão (que o comentário vai longo…), o Second Life é infinitamente mais complexo do que uma mera visita “de algumas horas” possa dar a entender. Essa é, em certa medida, a sua pior característica. Tem demasiadas pessoas; tem demasiada complexidade social; para o “compreendemos” temos de investir tanto tempo como a visitar um país novo, com a sua própria cultura e sociedade, os seus hábitos e costumes. Nesta geração do imediatismo do prazer, garantido pelo click instantâneo do controle remoto, o Second Life parece-nos “desajustado”. É verdade — não há “imediatismo” no Second Life. Aprendê-lo — e apreendê-lo — leva muito mais tempo do que a esmagadora maioria das pessoas tem capacidade para fazer.

    E por isso ficamo-nos pela ideia do bairro de lata, onde ciganos oferecem favores sexuais e todo o tipo de conteúdos por uma meia dúzia de Euros, e é com essa imagem com que ficamos e escrevemos nos nossos blogs.

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